Quem é Benjamim Tormenta?


Tudo começou com a vontade de criar um investigador do sobrenatural. Mas não queria que vivesse nos nossos dias, teria de ser noutra época histórica, quando parecesse que o mundo ainda tinha segredos e lugares escuros. Hesitei bastante entre os anos vinte/ trinta do século passado e a Era Vitoriana. Ambos os períodos fazem parte do meu imaginário pop, mas se o primeiro me recorda Indiana Jones – o meu herói absolutamente favorito do cinema, ou H. P. Lovecraft – a minha referência do horror, o segundo evoca-me os autores que influenciaram toda a literatura fantástica, desde o pulp até hoje: Bram Stoker, Júlio Verne ou Rider Haggard; e clássicos modernos, de Alan Moore a Mike Mignola, bem como as séries como Taboo ou Penny Dreadful. Também não queria que a ação se desenrolasse em Londres ou Nova Iorque: essas cidades já têm centenas de obras a desenrolar-se nas suas ruas e na sua História. O cenário teria de ser Lisboa, a minha Lisboa, e, porque ninguém amou ou descreveu melhor a cidade do que Eça de Queirós, seria a Lisboa da segunda metade do século XX. 1873 é o ano da primeira aventura, talvez porque seja exatamente 100 anos antes de eu nascer.

Quem é este detetive do oculto a quem chamam o bruxeiro? Movimenta-se pela Lisboa do século XIX, transporta consigo um demónio que se autodenomina divindade, o seu passado é tão nebuloso como as tatuagens que carrega no corpo. Habitado pelas trevas, recusa-se a ser tomado por elas, e as suas ações alternam entre as de um herói amaldiçoado e as de um anti-herói que procura redenção. Os produtores Benioff e Weiss, quando propuseram à HBO a série Guerra dos Tronos, descreveram-na como Os Sopranos no mundo de O Senhor dos Anéis. Achei o máximo! Eu diria que o mundo do bruxeiro são os Ficheiros Secretos na Lisboa de Eça de Queirós… a que adicionei pinceladas de H. P. Lovecraft e Mike Mignola.

Tanto quanto me foi possível indagar, é o primeiro investigador do paranormal da literatura nacional. Cada conto lê-se como o episódio de uma série de TV, oferecendo uma história completa; mas depois há um arco narrativo mais extenso que liga todos os contos, e é nesse arco que o passado e os segredos do personagem vão sendo revelados. De resto, vejo este livro como uma carta de amor a Lisboa, uma viagem ao final do século XIX da nossa capital (onde despendi centenas de horas em pesquisa), e uma homenagem a Eça de Queirós a quem fui buscar tudo o que pude – menos o talento, que é único.

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